PONTO DE VISTA: Biossegurança - ONDE CIRCULA O PERIGO

Dra. Lusiane Borges
Enquanto novas técnicas odontológicas avançam rapidamente em busca do "sorriso perfeito", boa parte dos profissionais ignora protocolos básicos de controle de infecção que começam a ser implementados no Brasil.


Dra. Lusiane Borges

Biomédica
Microbiologista
Cirurgiã-Dentista
Mestranda em Ciências da Saúde-UNIFESP (Escola Paulista de Medicina)
Coordenadora do Projeto de Biossegurança na Odontologia

Enquanto novas técnicas odontológicas avançam rapidamente em busca do "sorriso perfeito", boa parte dos profissionais ignora protocolos básicos de controle de infecção que começam a ser implementados no Brasil.


Na década de oitenta, com o aparecimento dos primeiros casos de AIDS, surge um novo conceito de atendimento médico-odontológico e uma mudança brusca nos paradigmas da área da saúde. Buscando o aumento de segurança e proteção, profissionais da área médica modificaram drasticamente suas condutas de atendimento em ambientes ambulatorial e cirúrgico.
A questão é preocupante, na medida em que variadas formas de contágio apresentam-se a cada dia, com diversas mutações e resistência dos microorganismos transmissores.
Doenças emergentes como AIDS, Hepatite C, Tuberculose Multirresistente e Pneumonia Asiática, dentre outras, são atualmente o principal foco de preocupação da OMS (Organização Mundial da Saúde). Esta elegeu inclusive a HEPATITE C como DOENÇA DO TERCEIRO MILÊNIO (assintomática em 90% dos casos, não existe vacina, tratamento de alto custo e de fácil transmissão em atividade de risco).


O consultório odontológico é, em princípio, um ambiente de promoção de saúde, mas poucos imaginam que a equipe odontológica muitas vezes atua como disseminadora de doenças que acometem a todos - profissionais e pacientes.


A Biossegurança Odontológica basicamente é sustentada por três grandes pilares:


Proteção Individual (profissionais, pacientes e descarte dos resíduos).
Desinfecção e Trocas de Barreiras (condutas no atendimento, materiais descartáveis).
Esterilização e Monitorização.


Embora amplamente divulgada a importância de se seguir um protocolo rígido de biossegurança, existe ainda uma resistência da maioria dos profissionais, com os mais variados argumentos: "a máscara atrapalha a respiração", "o óculos de proteção embaça","a luva prejudica o tato nos procedimentos". É necessária uma profunda reflexão da classe odontológica acerca do assunto, não só no aspecto legítimo de promoção de saúde mas no mercadológico. Nos últimos anos a Biossegurança tem se tornado, mais do que necessidade, um diferencial na prestação de serviço ao paciente.


Até o momento, não há norma específica de regulamentação para a Biossegurança Odontológica. Órgãos estaduais e municipais têm desenvolvido seus próprios protocolos por orientação da ANVISA (Agência Nacional da Vigilância Sanitária). Tal orientação baseia-se em seguir a regulamentação de serviços hospitalares e adequação à área odontológica. Neste contexto surgem normas e exigências não adequadas à área odontológica, como é o caso da esterilização, ponto crucial no controle de infecção do consultório. Desta forma, fazem-se necessários alguns esclarecimentos, particularmente sobre a esterilização e monitorização.


Embora a utilização da estufa - método de esterilização por calor seco não seja permitida em serviços hospitalares, as normas que regulamentam o controle de infecção em consultórios odontológicos aceitam-na como meio eficiente de esterilização. Infelizmente a maioria dos CDs ainda utiliza a estufa como método de esterilização.


Não podemos negar o valor da estufa como um método de esterilização, desde que seja utilizado adequadamente (fato que inviabilizaria o cotidiano do CD). O correto processamento demanda aproximadamente três horas, envolvendo o aquecimento até a temperatura ideal de 160º ou 170º (vinte minutos), permanência do instrumental pelo tempo necessário (uma ou duas horas), sem abertura da porta do equipamento, e resfriamento natural do instrumental para posterior acondicionamento ou utilização. É imprescindível que haja um termômetro calibrado no interior da estufa.


É importante destacar a eficiência e praticidade do autoclave - método de esterilização por calor úmido sob pressão - utilizada em todos os serviços hospitalares. Sua utilização adequada confere segurança ao paciente, otimização do tempo, economia de instrumental e diminuição das despesas do consultório. A maioria dos autoclaves gravitacionais (autoclaves de mesa) realiza seus ciclos entre quinze e vinte minutos numa temperatura de 134ºC e 121ºC. Destacam-se também os autoclaves de ciclo rápido, que otimizam ainda mais o tempo do Cirurgião-Dentista.


Além da esterilização através da estufa e autoclave, métodos químicos são comumente utilizados para materiais termos-sensíveis. O mais utilizado é o glutaraldeído a 2% por dez horas. Há uma novidade no mercado: o ácido peracético, que além de ser biodegradável, esteriliza em uma hora. Existem outros métodos de esterilização menos conhecidos e utilizados: o óxido de etileno (gás) e o plasma de peróxido de hidrogênio (45 minutos em temperatura de 45 a 50ºC). Este último, novidade no mercado hospitalar. Ambos são métodos de alto custo (sobretudo o segundo), o que torna inviável sua utilização na Odontologia. É importante ressaltar que a eficiência da esterilização (independentemente do método) é comprovada somente com a monitorização completa, onde testes químicos e biológicos são realizados sistematicamente. Os químicos (externos e internos) devem ser realizados em todos os ciclos, e o biológico, único método que atesta esterilização, deve ser realizado diariamente ou semanalmente, dependendo da especialidade do profissional.


A esterilização é um assunto bastante polêmico e gera inúmeras dúvidas, sobretudo quanto à escolha dos métodos e a monitorização. O ideal é associar o melhor custo-benefício à segurança do paciente.


Saiba mais sobre esterilização e o Selo Biológica Qualidade em Biossegurança no site www.biossegurancaodonto.com.br


A Divisão Odontis e a Biológica convidam:
Não perca a conferência sobre o tema "BIOSSEGURANÇA E MARKETING NA ODONTOLOGIA ATUAL", que será realizada na sede da ABO-RJ durante a ODONTORIO, dia 22/07/04 (15:00 e 16:00 horas).

Onde circula o perigo
Consultório dentário pode pôr em risco saúde de profissionais e pacientes

O consultório dentário é, a princípio, um ambiente de promoção de saúde. Mas poucos imaginam que pode ser também um lugar de propagação de doenças. Materiais esterilizados incorretamente, equipes sem o devido equipamento de proteção e procedimentos clínicos inadequados podem contribuir para que infecções sejam transmitidas do paciente para o dentista e deste para outro paciente, ou até de um paciente para outro através de instrumental e objetos contaminados -- processo conhecido como 'infecção cruzada'.

Com o objetivo de conscientizar os profissionais e reduzir os riscos de contágio nas clínicas, a cirurgiã-dentista e biomédica Lusiane Borges, que é atualmente aluna do mestrado em ciências da saúde na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) tem promovido palestras e workshops sobre o tema e, em janeiro, no 22º Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo (CIOSP), lançou um selo que atesta as mínimas condições de segurança contra a disseminação de doenças em consultórios dentários.

Ela explica que esses ambientes são muito suscetíveis às infecções cruzadas, que ocorrem quando microorganismos patogênicos trazidos pelos pacientes contaminam os instrumentos e o ar do consultório, e são posteriormente transmitidos a outros clientes. "Infelizmente não há uma conscientização efetiva sobre os riscos que a odontologia apresenta", lamenta Borges. "Doenças como as hepatites B e C, herpes labial, conjuntivite herpética, tuberculose, pneumonia, sífilis e até Aids podem ser disseminadas quando procedimentos mínimos de biossegurança não são adotados."

Destacam-se entre eles medidas simples que costumam ser ignoradas pela falta de informação da maioria dos profissionais. "Procedimentos adotados em clínicas médicas e hospitais, como o fim do uso de estufas para a esterilização, ainda não são padrão na maioria dos consultórios odontológicos", afirma a cirurgiã-dentista. Ela ressalta que materiais com alto índice de contaminação, como a caneta de alta rotação, não são esterilizados na maioria das vezes.

"Para que os consultórios se tornem mais seguros para os dentistas e para os próprios pacientes, é necessário a correta desinfecção de superfícies contaminadas e utilização de barreiras, além da eficiente esterilização dos instrumentos, após cada troca de paciente", sugere Borges. Um exemplo é a aplicação de películas de PVC na proteção de superfícies de difícil esterilização e alto grau de contaminação: "A cuspideira é um exemplo de local altamente contaminado, que necessita de desinfecção específica e de alto grau para minimizar os riscos de infecção cruzada."

A cirurgiã-dentista defende inclusive o uso dessas barreiras nos filmes utilizados em radiografias intrabucais, já que a caixa de revelação representa outro nicho de alta contaminação no consultório odontológico. "Uma película plástica protetora deve envolver o filme radiográfico e ser retirada antes da revelação na caixa, para que fique livre de possíveis contaminações de vírus ou bactérias."

Ela cita ainda outra medida segurança: "Ao aplicarmos no paciente um bochecho prévio ao atendimento, à base de clorexidina, o índice de contaminação gerado pelo aerossol - muito comum nos consultórios dentários e responsável pela proliferação de microrganismos -- pode ser reduzido em até 95% durante a primeira hora de atendimento."

 

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