Entrevista com dra. Lusiane Camilo Borges
Data: 23/02/2005
Por: Flavia Hesse
Nossa entrevistada desta semana, dra. Lusiane Camilo Borges,
tem uma atividade profissional bastante singular. Ela é biomédica
e dentista também. Suas qualificações
a levaram para uma atividade profissional praticamente inexistente
no Brasil, a da biossegurança em odontologia. Com
34 anos, ela trabalha intensamente procurando conscientizar
os profissionais da área odontológica da importância
da prevenção à infecção
em seus consultórios e clínicas. Leia sua trajetória
super interessante e fique informada aos itens que você deve
estar atenta em sua próxima visita ao dentista.
WM: Qual é a sua formação?
Lusiane: Sou
biomédica formada
pela UNISA e UNIFESP-EPM, com especialização
em Microbiologia pela Universidade Oswaldo Cruz. Depois cursei
odontologia e sou também cirurgiã-dentista
pela UMESP. Atualmente faço mestrado em Ciências
da Saúde - UNIFESP-EPM (Escola Paulista de Medicina)
WM: O que despertou o seu interesse pela microbiologia?
Lusiane: Durante
a faculdade de biomedicina, no último ano, é realizado
um rodízio
nas diversas áreas e durante a especialização
fui estagiar na área de infecção hospitalar.
Percebi que queria atuar mais na área clínica
do que em laboratórios. Fiz também o curso
de instrumentadora cirúrgica na USP. Assim acabei
trabalhando na área de neurocirurgia no Hospital S.
Paulo e achei a área muito interessante
WM: Já formada em biomedicina a sra. resolveu
cursar a Faculdade de Odontologia, por quê?
Lusiane: Fazia
estágio meio período
no 4º ano da Faculdade e o outro meio período
trabalhava na área de controle de infecção
neurológica, atuando como instrumentadora cirúrgica
na Escola Paulista de Medicina. Lá fiquei por cinco
anos. Gostei mais desta área especialmente dos problemas
relacionados à cabeça e pescoço. Isso
despertou o meu interesse em fazer a faculdade de odontologia.
WM: Como a sra. percebeu que havia deficiências
no controle de infecção nos consultórios
odontológicos?
Lusiane: Já no penúltimo
e último ano
da faculdade de Odontologia percebi que o controle de infecção
na área odontológica era muito precário.
Toda minha formação acabou por me levar a confluência
de especialidades peculiares da área no Controle de
Infecção. Assim, organizei um protocolo de
condutas biosseguras na área. Comecei trabalhar em
algumas clínicas e percebendo a rotina de trabalho
e como era feito o manuseio dos instrumentos e os cuidados
com a higiene, descobri que era uma área muito pouco
explorada no Brasil.
WM: Qual é a diferença entre uma médica
e uma biomédica?
Lusiane: A
medicina está associada
ao tratamento clínico e cirúrgico de um paciente.
Já a biomedicina vai se preocupar com os exames que
são realizados e as pesquisas para o avanço
da medicina no tratamento das diversas doenças.
WM: Por que a sra. se preocupa com o índice
de infecção
nos consultórios odontológicos? É grande?
Lusiane: É muito
grande o índice de pessoas
doentes. Um quarto da população dos países
da América Latina, África e Ásia têm
doenças infecto contagiosas, ou seja, de cada 10 paciente,
dois ou três estão com algum tipo de infecção
de menor ou maior grau. Essas doenças são transmitidas
pelo sangue e fluidos corporais. Na área odontológica
há presença
de sangue.
O vírus da Hepatite B vive por 6 semanas fora do
hospedeiro. O vírus da Hepatite C sobrevive por 2
semanas fora do hospedeiro, ou seja, se ele estiver em algum
objeto ele pode infectar durante semanas e a Hepatite C é uma
doença terrível e só foi descoberta
em 1989. Ela pode ficar assintomática (silenciosa)
por até 30 anos antes de se manifestar.
WM:: O que é infecção cruzada
e qual a periodicidade de ocorrência no atendimento
odontológico?
Lusiane: É a
transmissão
de microorganismos em ambiente clínico de pessoa a
pessoa (paciente-profissional, paciente-paciente e profissional-profissional)
através de contaminação aérea
e objetos ou instrumentos (vetores) contaminados. Na clínica
odontológica a infecção cruzada é dada
através de 3 veículos (sangue, saliva e instrumental
contaminado) e 2 vias de contaminação: Inalação
(spray de aerossol das turbinas) e Inoculação
(pérfuro-cortantes).
Na verdade, sempre teremos algum grau de infecção
cruzada, já que mais de 90% dos procedimentos odontológicos
são realizados em ambiente clínico, e , portanto
passível de contaminação. Isso não
ocorre, ou não deve ocorrer em ambiente cirúrgico,
onde se trabalha somente em condições estéreis.
WM: Quem corre mais riscos em ser infectado, o dentista
ou o paciente?
Lusiane: O dentista.
70% das doenças adquiridas pela
equipe odontológica são advindas da boca do
paciente e normalmente pelas vias aéreas (através
da dispersão do aerossol). Muitas vezes o dentista
desconhece ainda que, se infectar ou transmitir infecção
para alguém, não é preciso necessariamente
o contato sangue-sangue; a inspiração do ar
contaminado (aerossol) ou o contato saliva-sangue faz com
que ocorra a propagação da contaminação.
O dentista também é bastante vulnerável
a contaminação de outras doenças como
caxumba, sarampo, difteria, pneumonia, meningite e herpes.
O dentista corre um risco seis vezes maior de contrair Hepatite
B e treze vezes maior em contrair Hepatite C do que a população
em geral. Está em 3º lugar no ranking de profissionais
infectados
WM: Onde estão os maiores focos de infecção
em um dentista?
Lusiane: Há vários
focos:
· A mão do profissional é maior fonte
de contaminação. É responsável
por 80% das infecções cruzadas ocorridas no
consultório odontológica, por isso ele deve
sempre usar luvas descartáveis.
· O instrumental que não está adequadamente
esterilizado. É muito difícil conseguir uma
esterilização. adequada na estufa, por isso é indicado
que o profissional faça uso da autoclave, que além
do fator calor e tempo, tem o elemento vapor com pressão
que consegue matar um vírus resistente como o da Hepatite
B e C;
· A cuspideira que é uma grande fonte de infecção
no consultório pois é nela que os fluídos
bucais (saliva, sangue e muitas vezes pus) são depositados
constantemente. Sua desifecção é primordial.
· A caixa de revelação (câmara
escura portátil) onde são processados os filmes
de raios X precisa de constante limpeza e desinfecção.
No momento da tomada radiográfica, o filme deve estar
envolvido por uma barreira para sua posterior retirada, antes
da sua revelação. Desta forma, todos os microorganismos
da boca do paciente não entram na caixa e mantém
a cadeia asséptica ativa.
· A torneira da pia deve ser acionada por fotocélula
ou pedal e todo consultório odontológico deve
ter duas pias : uma para lavagem das mãs e outra para
o instrumental contaminado.
· Deve-se usar sabonete liquido e toalha de papel;
WM: o que acontece se o dentista não usa
luva? É possível
uma boa desinfecção das mãos sem a luva?
Lusiane: Ele
se expõe a sérios riscos
de contaminação , não é permitido
, em hipótese alguma, trabalhar sem luvas .
Existem várias evidências com comprovação
científica que a mão desnuda é o principal
vetor de contaminação para profissionais e
pacientes.
WM: Quais itens higiênicos ou preventivos que a sra.
considera indispensáveis em um consultório?
Lusiane:
· A paramentação adequada do profissional,
ou seja, a proteção individual: avental com
manga longa, gorro, óculos de proteção,
o uso constante de máscara cobrindo a narina, a luva
descartável é o mais importante;
· No consultório, dentro da sala o uso de
material descartável (sugadores e papel toalha, instrumental
lacrado (caixa ou pacote selado), torneira que não
seja acionada pela mão; asseio mínimo visual,
parede sem textura , sem planta viva ou aquário, sem
janelas abertas e o uso de ar condicionado, já que
o ventilador de teto ele espalha os microorganismos e esterilização
na autoclave.
WM: O profissional deve sempre usar máscara?
Lusiane: O
não uso da máscara
deixa o nariz do profissional exposto todo o tempo, inclusive
quando introduz a broca para abrir aquele dente há muito
cariado, espalhando o aerossol com colônias de bactérias
e vírus que permanecem em suspensão no ar num
perímetro de até dois metros do paciente. O
dentista usa a máscara dessa forma, segundo o seu
raciocínio, "para respirar melhor". O que esse profissional
não sabe é que ele está exposto a um
universo altamente contaminado por diversos vírus
e bactérias patogênicos.
WM: Por que há resistência de alguns
profissionais adotarem estas simples medidas?
Lusiane: Basicamente é uma
questão
cultural. Se o profissional já está formado
há alguns anos, ele não teve informação
sobre uma série de doenças emergentes, que
antes eram praticamente inexistentes. É da Tuberculose
Multiresistente, Hepatite C, Gripe Asiática. Quando
ele é adequadamente informado dos riscos, normalmente
passa a adotar as técnicas corretas. No ambiente hospitalar,
desde o surgimento da Aids, passou-se a exercer um controle
infinitamente mais rigoroso para prevenir a infecção
hospitalar, em qualquer hospital, público ou privado.
O mesmo não acontece no ambiente odontológico.
A ANVISA (Agência nacional de Vigilância Sanitária)
não exerce uma fiscalização ostensiva
na área odontológica como ocorre nos serviços
hospitalares. O dentista precisa estar consciente que ele é um Promotor
de Saúde para atuar como "disseminador de
doenças".
WM: Como surgiu o "Protocolo de Biossegurança"?
Lusiane: Exatamente
da constatação
da falta de conhecimento que há nos consultórios
odontológicos dos riscos "infecciosos" existentes.
O "Projeto de Biossegurança em Odontologia", que realizamos
com apoio de algumas grandes empresas (Kodak, 3M, BD e Fórmula & Ação),
funciona no âmbito Brasil e realiza um trabalho de
conscientização dos profissionais da área
através de Workshop do Protocolo de Biossegurança
alertando-os dos riscos a que estão expostos e como
realizar o trabalho preventivo no consultório odontológico.
WM: Foi em função de sua vivência
prática
que a sra. montou a empresa de consultoria Biológica?
O que ela faz.
Lusiane: Exatamente.
Comecei a fazer consultoria e acabei por implantar as normas
de biossegurança
do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) da ADA
(American Dental Association), de certa forma "tropicalizei
os procedimentos e criei o Selo Biológica Qualidade
Em Biossegurança
E Atendimento Odontológico que é uma normatização
dos procedimentos. Ele é um ATESTADO de condições
ideais para o trabalho sem riscos. É revalidado semestralmente
sob vistoria da Equipe Biológica.
WM: Há um site onde as pessoas podem buscar
informações?
Lusiane: Nosso
site é o http://www.selobiologica.com.br em
que também temos um serviço de perguntas e
respostas.
WM: A sra. é casada, tem filhos?
Luisane: Sou
divorciada e tenho um
filho de 13 anos.
WM: É dificil conciliar a vida profissional
com a familiar?
Lusiane: É bem
complicado já que
trabalho em média 13 horas diárias de segunda-feira
ao sábado. Tem a consultoria, os Workshops e cursos
que ministramos para a equipe auxiliar do dentista. O que
procuro fazer é almoçar diariamente com meu
filho.
WM: Sobra tempo para uma atividade física?
Lusiane: Não
muito, mas consigo caminhar três vezes por semana e
fazer alongamentos.
WM: O que a sra. gosta de fazer em seus momentos
de lazer?
Lusiane: Gosto de
cinema, música.
Adoro ir a shows.
WM: Algum recado final para nossas leitoras?
Lusiane :
Entendo que mulher moderna vive constantemente num grande
conflito, sobretudo quando ela tem filhos. O tempo é escasso
e o dilema da culpa é permanente.
Acho que devemos dar o "possível" para o nosso trabalho
e entes queridos. Há momentos que o trabalho se sobrepõe à vida
particular e solicita uma grande e especial dedicação,
mas isso não deve ser uma constante. A família
e nossas relações afetivas são a grande
fonte de energia que nos torna um pouco melhor a cada dia.