As
doenças impensáveis no consultório dentário
Há grandes chances de adquirir doenças inconcebíveis para
um consultório odontológico, como hepatite B e C, caxumba, sarampo
e até herpes genital
O marido
chega bem depois do trabalho com a camisa desalinhada, gravata torta,
cabelo desgrenhado. Com o olhar distante, olha para a esposa e diz: Querida,
tenho uma notícia para te dar. É sobre a minha, ou
o melhor, a nossa saúde. Estou com herpes genital e a contraí na
dentista. Não, querida, eu não quis dizer com
a dentista. Eu disse na dentista; na clínica
dela!
Num consultório
de um lugarejo no sertão, estão dispostos em copos
americanos desses comuns, de massa de tomate uma variedade
de dentaduras imersas numa solução de álcool
e água. O objetivo da vitrine? Modelos para os clientes experimentarem
e escolherem aquelas que melhor se adaptarem às suas bocas.
E depois de cada prova, cada um deposita a dentadura que não
gostou de volta na embalagem original para o outro cliente.
Consultório
moderno de uma grande cidade. O profissional, um cirurgião-dentista
com muitos anos de profissão e clientela fixa, mantém
a boa higiene do seu estabelecimento e toma alguns cuidados: usa
luvas descartáveis e óculos de proteção.
Mas na boca, a máscara deixa o seu nariz exposto todo o tempo,
inclusive quando introduz a broca para rasgar aquele dente há muito
cariado, espalhando o aerossol com colônias de bactérias
e vírus que permanecem em suspensão no ar num perímetro
de até dois metros do paciente. O dentista usa a máscara
dessa forma, segundo o seu raciocínio, para respirar
melhor. O que esse profissional não sabe é que
ele está exposto a um universo altamente contaminado por diversos
vírus e bactérias patogênicos. O cirurgião-dentista
desconhece ainda que, para infectar alguém, não é preciso
necessariamente o contato sangue-sangue; basta aspirarmos o ar contaminado
ou deixar a saliva de alguém infectado cair sobre a nossa
pele que a circulação sangüínea se incumbe
do resto. Ele também está suscetível ao HPV,
caxumba, sarampo, difteria, pneumonia, meningite e herpes, inclusive
genital.
Em outra
clínica, a dentista se esquece de lavar as mãos entre
o atendimento de um paciente e outro ou o faz vestindo as
luvas que deveriam ser descartáveis. E em outro consultório,
ainda, o profissional faz a devida assepsia das mãos, mas
não desinfecta corretamente a caneta com a qual anota as etapas
dos tratamentos dos seus pacientes ou mesmo o teclado do seu computador,
contribuindo para que ocorra a chamada infecção cruzada.
Essas
histórias não são ficção. Acontecem
todos os dias em diversas cidades brasileiras, de norte a sul do
país, e ajudam a esquentar a estatística da Organização
Mundial de Saúde segundo a qual ¼ dos pacientes que
vão aos consultórios dentários levam consigo
inúmeras doenças prontinhas para serem transmitidas,
inclusive aos próprios dentistas que, por isso, são
13 vezes mais suscetíveis à infecção
da hepatite tipo C e seis vezes à B. Essas e outras histórias
que parecem anedotas fazem parte do rol de experiências que
Lusiane Camilo Borges, biomédica pela UNISA e UNIFESP-EPM,
especialista em Microbiologia pela Universidade Oswaldo Cruz, cirurgiã-dentista
pela UMESP e mestranda em Ciências da Saúde pela UNIFESP-EPM
vem colhendo ao longo dos seus mais de 10 anos de profissão.
Há cinco, ela luta junto com a APCD (Associação
Paulista de Cirurgiões-Dentistas, da qual é uma das
coordenadoras científicas) para conscientizar esses profissionais
da importância da Biossegurança.
Em janeiro
deste ano ela finalmente conseguiu. Lusiane acaba de lançar
o Selo Qualidade em Biossegurança, cujo papel é atestar
as condições biosseguras aos consultórios. O
selo conferirá ao estabelecimento respeito e seriedade no
tratamento odontológico.
Segundo
a biomédica, a maior fonte de contaminação do
consultório odontológico está no instrumental
esterilizado inadequadamente. Os locais mais contaminados são
a cuspideira, a caneta de alta-rotação (a famosa maquininha
do dentista, a qual os pacientes deveriam temer também
pelos riscos de contágio que ela proporciona) e a caixa de
revelação, destinada ao acondicionamento dos filmes
de raios X local de grande contaminação e que
precisa de constante limpeza e desinfecção, bem como
o correto manuseio das películas de filmes. Aliás,
há uma inovação na área de Biossegurança
odontológica que é o filme InSight ClinAssept, da Kodak,
o único que vem com uma barreira protetora de fábrica o
que ajuda a praticamente eliminar os riscos de infecção
pela caixa de revelação, diz.
De acordo
com Lusiane, esses são os principais motivos para as pessoas
se conscientizarem e se preocuparem quando forem ao dentista. Assim
como os médicos, os cirurgiões-dentistas brasileiros
ficam no topo da lista como os mais habilidosos com as mãos.
Porém, quando o assunto é higiene e cuidados com a
contaminação, ficam nos últimos lugares do ranking. É preciso
mudar esse quadro, finaliza a biomédica. Já pensou
se cada brasileiro fosse ao dentista de seis em seis meses, tal como
se recomenda? Os números de infecção certamente
seriam maiores.
Mais detalhes
sobre o selo podem ser adquiridos no site: www.biossegurancaodonto.com.br.